O que é a sobrevivência

A sobrevivência é o fato de um organismo vivo lutar para manter-se em vida num contexto de risco maior de morte. Em ambientes naturais, nossa capacidade de sobrevivência é máxima quando estamos fisicamente e mentalmente preparados e sobretudo adequadamente equipados para responder à todos os riscos do ambiente no qual nos encontramos.

Princípios: O cubo da sobrevivência

A sobrevivência é um conjunto de conceitos, princípios e técnicas de gestão de riscos que ameaçam a vida. Os princípios podem ser resumidos por um cubo de três dimensões: o contexto, as necessidades básicas e o kit de equipamentos.

cubo da sobrevivência
Fonte: César Ramos

Contextos

Podemos identificar claramente cinco contextos de sobrevivência realmente desafiadores com riscos específicos que requerem um planejamento minucioso: 1. montanha, 2. floresta, 3. selva tropical, 4. deserto e 5. mar. Quando você se encontrar numa emergência ou numa situação de sobrevivência bem afastado da civilização, você deverá se preparar para uma longa espera do resgate e deverá iniciar o processo de sobrevivência com os equipamentos que tiver a disposição.

Foto: Royal Air Force
Foto: Forester2009
Foto: Dallas-Krentzel (Floresta amazônica do Ecuador)
Foto: Chile365 (Parque Nacional Llullaillaco)
Foto: Kevin Cure (Selva amazônica, Brasil)
Foto: US Navy

Necessidades básicas

Em ambientes naturais assim como em situações de sobrevivência, temos seis necessidades básicas que representam seis prioridades permanentes:

  1. Regulação térmica (RT) que consiste em manter a temperatura do nosso corpo;
  2. Hidratação (HD) que consiste em beber água;
  3. Nutrição (N) que consiste em se alimentar;
  4. Proteção (P) que consiste em proteger-se dos elementos naturais (frio, chuva, vento, fogo, raios, etc.), animais predadores, insetos ou agressões de terceiros;
  5. Higiene (HG) que consiste em manter-se saudável e limpo, evitando infecções e doenças fatais.
  6. Orientação (O) que consiste em ser capaz de identificar a nossa localização e de orientar-se.

Como montar um kit de sobrevivência?

Um kit de sobrevivência é um conjunto de equipamentos que permite executar as respostas que foram planejadas em caso da materialização de determinados riscos. Existem quatro tipos de elementos que podemos incluir num kit de sobrevivência: ferramentas, equipamentos, eletrônicos e conhecimentos. Para poder melhorar a organização e o controle de todos os equipamentos, é recomendável organizar o “kit de sobrevivência” em sub conjuntos ou “kits” temáticos .

Os “kits” podem ser organizados e controlados nos 22 kits temáticos que seguem: 1. Vestuário; 2. Acampamento; 3. Abrigo; 4. Fogo; 5. Água; 6. Coleta d’água; 7. Purificação d’água; 8. Alimentos; 9. Coleta de alimentos; 10. Pesca; 11. Caça; 12. Lixo; 13. Higiene corporal; 14. Limpeza; 15. Ferramentas; 16. Armas; 17. Cordas; 18. Rapel; 19. Primeiros socorros; 20. Navegação; 21. Comunicação e 22. Sinalização. As 22 categorias propostas respondem às 6 necessidades básicas, conforme ilustrado na tabela que segue.

    Tipo de resposta

Necessidade básica

Inicial

 

Emergencial

 

Sobrevivência

 

Regulação térmica Roupas Acampamento / Abrigo Fogo
Hidratação Água Coleta d’água Purificação d’água
Nutrição Alimentos Coleta de alimentos / Pesca Caça
Higiene Lixo Higiene Limpeza
Proteção Ferramentas Armas / Cordas / Rapel Primeiros socorros
Orientação Navegação Comunicação Sinalização




A Arte da aventura e da sobrevivência

O planejamento de uma aventura requer considerar seriamente o risco de se encontrar numa situação de sobrevivência numa área remota. Saber planejar uma ventura é uma técnica mas é também uma arte. Essa arte consiste em desenhar respostas adequadas a cada risco para nunca se encontrar numa situação de sobrevivência. Para isso, é necessário desenvolver planos de ação detalhados que permitam dar respostas eficazes a todos os riscos da aventura e organizar bem os equipamentos da aventura para evitar de se encontrar numa situação emergencial sem ter ferramentas adequadas para fazer frente a situação. Imprevistos e acidentes acontecem! De forma objetiva e prática, os equipamentos que levar na sua aventura podem ser a diferença entre a tranquilidade da espera do resgate e o estresse, ou em alguns casos extremos, entre a vida e a morte.

A preparação dos equipamentos para a aventura e para a sobrevivência requer três habilidades: saber avaliar corretamente os riscos da aventura, saber identificar os equipamentos que realmente devemos levar e saber usar os equipamentos que iremos levar. Não adianta levar equipamentos que não sabe usar!

Quais equipamentos você levaria num área remota como a floresta amazônica ou a mata atlântica para garantir sua segurança e sobrevivência em caso de acidente? Na foto que segue apresento numerosos objetos e ferramentas que podem ser indispensáveis em determinadas situações de sobrevivência, em conjunto com suas roupas e outros equipamentos.

Foto: César Ramos

Os objetos desse conjunto são bastante versáteis e úteis e não são tantos assim! Porém alguns equipamentos importantes faltam nesse conjunto. Por exemplo, esse conjunto não tem roupas adicionais. E se a temperatura cair? Também ele não tem um kit de primeiros socorros nem um equipamento de comunicação emergencial. E se acontecer um acidente? Não estamos levando tampouco nessa configuração uma barraca ou mesmo uma barraca de sobrevivência. E se precisamos pernoitar no local? Não estamos levando um equipamento de purificação química da água. E se a água disponível no local estiver suja? Por constaste, estamos levando nessa configuração, armas pesadas, equipamentos para caçar e montar armadilhas, equipamentos para fazer uma fogueira (que é proibido), equipamentos para fazer um rapel de fortuna. Tudo isso é necessário? Qual a probabilidade de você precisar usar algum desses objetos pesados? Levar todos esses objetos é realmente necessário? Quais são os objetos que devemos levar? Pois é, parece que não dá para aplicar receitas prontas! Precisamos avaliar com calma os riscos da aventura que se pretende fazer e desenhar planos de ação adaptados, caso a caso, risco por risco, para não carregar muito peso inutilmente.

E se você avaliou que os riscos da aventura são muito reduzidos, não seria suficiente levar apenas os 9 objetos que seguem? Quais são eles: cantil militar com caneco, canivete sólido, pulseira de corda, bússola com visor, apito (com termômetro, lupa e bússola), lanterna manual, pederneira com magnésio, capa de bivaque e saco de lixo de 100 litros. Isso não seria suficiente para montar um abrigo emergencial durante o verão e pernoitar uma noite no local da aventura?

Foto: César Ramos

E se a água estiver abundante e se você conhecer todos os pontos de água na trilha, preferir carregar uma simples garrafa pet, optar por levar roupas adequadas ao clima e conhecer um abrigo abandonado com lareira no qual você pretende montar sua barraca de acampamento, não daria para reduzir ainda mais esse conjunto? Por exemplo, levando apenas além das roupas, alimentos, água e equipamentos de acampamento esses três objetos: canivete, pederneira com magnésio (para ascender a fogueira na lareira) e pulseira de corda para amarrar a lenha para a fogueira? Mas a pederneira seria nesse caso a melhor ferramenta para ascender a lareira? Não seria melhor levar um simples isqueiro BIC, um pouco de combustível inflamável e uma isca para o fogo?

Foto: César Ramos

E se a aventura consistir apenas num passeio de 2 horas no verão a uma distancia de 800 metros do seu carro, não seria mais agradável apenas levar um objeto no cinto (um cantil) e outro no bolso (um canivete), sem ter que levar uma mochila? E nesse caso, usar a pulseira no braço e levar no bolso duas barras de cereais, um pequeno isqueiro BIC e um caixa de fósforos ia mudar alguma coisa no conforto do passeio? Será mesmo que não vale a pena levar esses itens adicionais?

Foto: César Ramos

Como foi ilustrado aqui, o ponto crítico de uma boa gestão do risco de sobrevivência consiste em fazer um planejamento adequado da atividade que você pretende fazer para levar  equipamentos de segurança adequados sem atrapalhar inutilmente o prazer da sua excursão!

Confira agora outras dicas para montar um bom kit de sobrevivência.

Fonte: César Ramos, Manual de aventura e sobrevivência, volume 1 Planejamento da aventura, São Paulo, 2017.

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